Guerra cultural e retórica do ódio

Uma etnografia do bolsonarismo

A primeira vez que ouvi falar em João Cezar de Castro Rocha não foi por sua extensa atividade de crítico literário, de que resultaram formidáveis análises das obras de Shakespeare (1564-1616), Machado de Assis (1839-1908) e tantos outros; nem foi por seus inovadores estudos da obra de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), naquilo que concerne ao conceito de cordialidade. O nome de João Cezar me veio por sua louvável atuação na (re)edição das obras de José Guilherme Merquior (1941-1991) –pensador que, a despeito de sua grandiosidade, havia sido injustamente relegado ao limbo cultural, mas que, graças ao suporte exemplar de sua herdeira, Julia Merquior, voltou ao mundo dos vivos, sob os auspícios da É Realizações.

Constatado esse pecadilho, logo tratei de tirar o atraso, pondo-me a ler os livros do Professor Titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Neles, o leitor interessado encontrará todo o essencial e mais um pouco: astúcia argumentativa, vastíssima cultura, inventividade intelectual – tudo isso exposto em prosa radiante.

No ano passado, em plena pandemia da COVID-19, tive notícia de seu mais novo lançamento[i]; somente que, desta feita, enfrentando um tema bastante distinto daqueles que me haviam ajudado a traçar um panorama geral dos interesses do autor. Sua nova proposta, em virtude da qual havia empenhado os últimos anos de pesquisa, era tão clara quanto instigante: decompor a macabra arquitetura do bolsonarismo, revelando-nos sua matriz ideológica, para que pudéssemos nos livrar da caricatura em prol de uma objetiva caracterização do fenômeno político-cultural.

Sem o pendor de dar por encerrada a discussão, interditando o debate em torno do bolsonarismo, o livro é contundentemente democrático: abre novas veredas, reavivando o diálogo acerca da atual conjuntura. Aos que ainda não tiveram o prazer de ler Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político, as linhas que seguem são apenas um aperitivo, que não dispensa, mas antes recomenda, o prato principal.

Uma esfinge por decifrar

Afinal, o que é a mentalidade bolsonarista? De imediato, pode-se responder com toda uma série de juízos negativos, que, malgrado humanisticamente legítimos, com frequência, sequer ultrapassam a barreira da mera adjetivação. Contornando essa armadilha, João Cezar investe em um expediente construtivo, esforçando-se para elaborar uma definição positiva do fenômeno, permitindo-nos uma compreensão que oriente uma resistência política bem fundamentada, para que escapemos do atoleiro em que estamos metidos.

Para tanto, o método escolhido foi o da etnografia textual: tampando o nariz – e com uma paciência de Jó – o autor mergulha em um pântano político-cultural, examinando cuidadosamente toda a produção textual, audiovisual, musical e comunicacional das redes bolsonaristas, articuladas em uma midiosfera de extrema-direita. De volta, em terra firme, e após um banho de sal grosso, o autor apresenta suas conclusões em um quarteto de crônicas, logicamente articuladas, em que o leitor, seja ele quem for, é convidado a ver o bolsonarismo como ele é. A aposta é simples: basta descrevê-lo objetivamente para que se evidencie o seu desvalor intrínseco.

Isto posto, a matriz ideológica do bolsonarismo se assenta, para João Cezar, em três componentes básicos, que, apesar de sua vulgaridade, ostentam uma impressionante coerência interna, ademais de terem se mostrado assustadoramente eficazes, no campo da disputa política. São eles: (a) a doutrina de segurança nacional; (b) a “teorização” paranoica e conspiratória disposta no ORVIL; (c) o sistema de crenças Olavo de Carvalho.

Identificar, torturar e aniquilar

Enganam-se os que pensam que o bolsonarismo é fenômeno de inspirações recentes. Segundo demonstra, respaldado em sólida base factual, as raízes do bolsonarismo estariam presentes na infame doutrina de segurança nacional, primeiramente esboçada em abril de 1935, quando o varguismo editou a lei inaugural pertinente ao tema.

No curso da Guerra Fria, a doutrina se adensou e proliferou, tornando-se determinante, por motivos mais que óbvios, a partir do 1º de abril de 1964. Instaurada a ditadura civil-militar, sucessivas foram as leis de segurança nacional, cada qual revogando a antecedente, nos anos de 1967, 1969, 1978 e 1985[ii]. O autor centra seu fogo crítico no Decreto-Lei nº 898, de 29 de setembro de 1969, que intentara adequar a doutrina à impostura do AI-5, decretado meses antes, em 13 de dezembro de 1968.

A lei selecionara um inimigo a ser combatido, expressão do perigo vermelho, contra o qual tortura, prisão perpétua e pena de morte seriam afirmadas como as armas mais convenientes. Assim se instituiu, sob um verniz legalista, uma visão de mundo marcada por um binarismo agônico, cingindo a vida nacional em dois polos opostos e inconciliáveis: amigos e inimigos.

Em sessão na Câmara, o então deputado posa para uma foto com o livro de seu ídolo.

Esta doutrina forjou as mentalidades de bolsonaro (1955-) e dos generais Augusto Heleno (1947-) e Hamilton Mourão (1953-), que se formaram, juntos, na mesma turma de paraquedistas do exército. Lembremo-nos que, quando da votação do impeachment, em 2016, o mesmo bolsonaro, então apenas deputado, achou por bem homenagear seu ídolo nada casual: o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), qualificando-o como “o pavor de Dilma Rousseff”. Ora, Ustra é justamente a personificação da doutrina de segurança nacional sanguinária de 1969: identificar, torturar e aniquilar. É este o passado que o bolsonarismo quer resgatar para fazer frente aos seus inimigos do presente.

Revisionismo conspiratório e paranoia abrutalhada

Uma vez derrotada a ditadura, os crimes praticados pelos militares foram amplamente comprovados e divulgados pelo já clássico Brasil: nunca mais (1985). Com a publicação do livro, a imagem dos militares se viu decididamente manchada: suas mãos estavam banhadas de sangue inocente. Para restaurarem a honra das forças armadas, uma resposta à altura se fazia necessária.

Foi então que, entre 1986 e 1989, recorrendo aos arquivos do Centro de Inteligência do Exército (CIE), o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do, ao que tudo indica, duplamente imortal José Sarney (1930-), pôs em marcha o projeto do ORVIL (pelo avesso, lê-se: “livro”). A ideia, como o próprio título sugere, era inverter a narrativa exposta nas páginas de Brasil: nunca mais (1985), que havia comprovado que a ditadura havia transformado a tortura e o homicídio em política oficial de Estado.

Mas o projeto foi além. Em um revisionismo histórico dos mais mambembes, transmitido por uma prosa de décima-nona categoria, o documento de mais de 900 páginas investe em um expediente decididamente paranoico e conspiratório para, se não apagar a memória histórica, sedimentar as bases para a luta futura. No ORVIL, lê-se que desde a fundação do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, a República esteve sempre ameaçada pelo perigo vermelho, que, em três ocasiões, pegou em armas para tomar o poder: (a) na chamada intentona comunista (1935); nos anos em que Jango esteve no poder (1961-1964); e durante a luta armada (1967-1974).

Todavia, com o aniquilamento da Guerrilha do Araguaia (1974), os comunistas teriam sido forçados a uma autocrítica, entendendo que uma revolução armada não mais seria possível, dada a disparidade de forças entre os polos em conflito. Mais conveniente seria adotar uma estratégia distinta: trocar as armas pelos livros, o belicismo pela guerra cultural. Deixemos que o documento fale por si[iii]:

Após a autocrítica, uma a uma das diferentes organizações envolvidas na luta armada concluíram que foi um erro lançarem-se na aventura militarista, sem antes terem conseguido o apoio de boa parte da população. A partir desse momento, reiniciaram a luta para a tomada do poder, mudando de estratégia – a prioridade agora seria dada ao trabalho de massa.

O trabalho de massa consiste na propagação da ideologia e na utilização das técnicas de agitação, de propaganda, de recrutamento e de infiltração, valendo-se de todos os meios de comunicação social para atuar sobre os diferentes segmentos sociais (movimento operário/sindical; movimento educacional; movimentos populares; etc.), a fim de conscientizar a massa para a necessidade de fazer a revolução.

O guru e seu sistema de crenças

Foi justamente na década de 1990, com a dissolução da União Soviética e o ocaso da Guerra Fria, que a figura exótica de Olavo de Carvalho (1947-2022) começou a se destacar nos meios de comunicação brasileiros, especialmente pela sua atividade de articulista, que lhe rendeu, aliás, o apelido de bestalhão.

Aos poucos, o falecido guru dos bolsonaristas passou a adotar todo o jargão da extrema-direita: globalismo, marxismo cultural, estratégia gramsciana, ideologia de gênero etc. Mas, como João Cezar nos mostra, o filósofo diletante fez muito mais do que isso, mostrando-se extremamente habilidoso em suas aspirações megalomaníacas. Olavo de Carvalho logrou elaborar uma retórica do ódio, lastreada em um sistema de crenças, que, esvaziou completamente os conceitos de comunismo e comunista. O próprio guru sintetizou perfeitamente sua paranoia violenta e conspiratória: é comunista todo aquele que não for anticomunista.

bolsonaro e Olavo de Carvalho, lado a lado, por ocasião de jantar nos EUA.

Nesse sentido, qualquer um que porventura desafie a autoridade incontestável do bolsonarismo será, de pronto, atacado pelos membros da seita. Alertados por um conjunto de senhas, como “analfabeto funcional”, os inimigos são instantaneamente apontados para as milícias digitais bolsonaristas. Não há diálogo possível com o inimigo: todos foram educados com base no método de Paulo Freire (1921-1997) e trabalham incansavelmente para destruir a civilização judaico-cristã.

O sistema de crenças Olavo de Carvalho acabou por operar um revisionismo da própria concepção dos militares sobre a ditadura de 1964: eles acreditaram ter vencido o inimigo, mas se esqueceram de que, para vencê-lo, é necessário destrui-lo. Este inimigo está em toda parte, controlando as instituições, o que explica a sanha bolsonarista em destrui-las todas: cultura, educação, ciência, tecnologia e assim por diante. Há que passar o Brasil a limpo, livrando-nos do marxismo cultural. Quem quer que tente reagir é, de pronto, etiquetado de comunista.

Ao que tudo indica, é assim mesmo que a banda toca.

Encerro por aqui essa breve digressão, na esperança de que esses breves comentários sirvam para que o estimado leitor confira, por si mesmo, as admiráveis páginas do livro de João Cezar de Castro Rocha. Vale a pena!

Notas de rodapé

[i] ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos, 2021.

[ii] Esta última, finalmente revogada pela lei 14.197/21.

[iii] O trecho se encontra à página 839.

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