Contra o tinhoso, em nome de Jesus.

Sejamos sinceros: todos temos algumas esquisitices, ainda que, convenientemente, prestemos mais atenção às dos outros – talvez por já termos naturalizado as nossas próprias excentricidades.

Sou um bibliófilo, razão pela qual me sinto em casa, onde quer que me encontre cercado por livros. Até aí, nada de estranho. Parando para pensar, nem bancos, nem delegacias: bibliotecas, livrarias e sebos são, provavelmente, os lugares mais seguros do mundo. Quem, afinal, entraria, mal-intencionado, em um lugar exclusivamente dedicado à leitura? Chega a ser difícil imaginar a cena…

Mas nem só de bons livros vivem os leitores: mantenho, em minha biblioteca, uma prateleira inteiramente voltada a obras que, justamente por serem excepcionalmente toscas, não hesitei em adquirir. Se me fossem cobradas explicações, eu não saberia ao certo o que responder, apenas que esquisitice é assim mesmo; e quem não tiver a sua, que atire a primeira pedra!

À guisa de exemplo, uma pérola que já completa dez anos.

Nos idos de 2013, sempre caminhando pelo centro do Rio de Janeiro, era comum passar em frente à Universidade Candido Mendes, no imponente edifício da Rua da Assembleia, 10. Quando era assim, o subsolo, onde funcionava a Livraria Cultural da Guanabara, era parada obrigatória. Topava com amigos e colegas, era surpreendido por professores e ex-professores, e aproveitava para prosear com um par de formidáveis livreiros, que, aliás, me venderam os meus primeiros livros de criminologia.

Em uma dessas ocasiões, um deles, ciente dos meus interesses criminológicos, me veio com uma novidade bibliográfica; um livro que acabara de ser lançado pelo selo Lumen Juris: Criminologia do Satanismo[1], de Claudia Borato. Tratava-se, sem dúvida alguma, de título apelativo e espalhafatoso, ainda que por um preço nada convidativo, porém, ao verificar a contracapa, não pude resistir à tentação. Vejam que maravilha:

O satanismo manifesta-se de diferentes formas e há diversas ramificações no mundo todo. Há, inclusive, satanistas que adoram o diabo, entretanto, não matam pessoas, nem oferecem sacrifícios ao seu deus. Quanto a estes não há o que falar em estudo criminológico, vez que não há crime em adorar o diabo. O tipo de Satanismo estudado nesta obra consiste no sequestro, tortura e morte de seres humanos e animais oferecidos a Satanás, em troca de poderes, riquezas e favores. É um fanatismo religioso, uma crença em matar e oferecer em sacrifício vidas para agradar ao seu deus. No mundo todo há o registro de desaparecimento de adultos e crianças, sendo que na sua maioria as causas não chegam a ser investigadas, não existindo conclusão a estes desaparecimentos.

Da leitura, extrai-se impressão análoga à de quem deita os olhos nas páginas mais ordinárias do jornalismo policialesco, o que me remetia, imediatamente, ao sensacionalismo que se praticava em Notícias Populares (1963-2001). Está certo que, na comparação, o livro deixa muito a desejar: o tinhoso até é mencionado de cabo a rabo, sem deixar muito espaço para um acanhadíssimo lobisomem, mas nada disso é páreo para manchetes sobre o “papa-defuntos que vê e conversa com a loira fantasma”, o “diabo nascido em São Paulo” e o “lobisomem que atacou a polícia no Acre”. Se me fosse dado escolher, os louros da fama pertenceriam, indubitavelmente, aos que tiveram o bom-senso de não se levar a sério.

Do ponto de vista teórico ou, mais precisamente, naquilo que concerne às aspirações teoréticas da autora, fica evidente que a excessiva fixação no sobrenatural, aliada à falta de talento para a pesquisa, acabaram conformando uma mistura das mais encruadas. Está tudo ali: incompreensão categorial, incoerências epistemológicas, critiquice de debutante, teologia de nível primário, ao que se somam os frequentes descuidos com a boa escrita – tudo isso encadeado pelo positivismo criminológico mais tacanho que se possa imaginar.

Ora, se centenas de milhares de pessoas desaparecem, anualmente, em nosso país, é imperativo investigar o fenômeno, de modo a oferecer soluções práticas para o problema, que certamente é merecedor de nossa atenção. Entrementes, soterrada até o pescoço nas próprias crendices, a autora preferiu rumar pelas sendas do ficcionismo involuntário, forçando a correlação ou causalidade – em seu vocabulário, quase sinônimos – entre os tais desaparecimentos e a proliferação de seitas satânicas. Acha-se, ali, prontinho e embalado, o roteiro para um estrondoso fracasso de bilheteria.

Como é melhor prevenir do que remediar, já fiz questão de deixar registrado em testamento o meu desejo de ser enterrado com minha cópia do livro. Afinal, se eu estiver errado e Deus efetivamente existir, quero encontrá-lo com alguma prova de que já amarguei um sofrimento ponderável, ao que Ele talvez se compadeça, e garanta meu ingresso no paraíso. Quanto à autora, perdoemo-la; ela não sabe o que faz…

Notas de Rodapé

[1] BORATO, Claudia Nara. Criminologia do satanismo. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2013.

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